Trabalho criativo impacta!
Ontem me aconteceu algo muito estranho.
Para que não pareça muito dramático o título desta página em meu diário de bordo, vou começar a história de onde se deve começar: O início.
Para que não pareça muito dramático o título desta página em meu diário de bordo, vou começar a história de onde se deve começar: O início.
Ontem, dia 20/12, estava em um boteco da cidade bebendo, sozinho, meu costumeiro Mojito de Domingo. Fazem uns 5 ou 6 anos que não bebo outra coisa quando há a possibilidade de apreciar um bom Mojito. É desinteressante à narrativa, mas falarei assim mesmo: Este bar, em específico, possui o melhor da cidade não sei ao certo o por que. Imagino que seja o excesso de vodka que o barman gentilmente confere ao drink, ou talvez a grande quantidade de gelo que ele adiciona ao copo(para compensar o excesso do ingrediente mais valioso da bebida, obviamente). O fato é que é muito bom e por isso sempre vou lá aos domingos.
O Natal está chegando e a cidade está completamente deserta.
Ok, talvez seja um pouco de exagero empregar a palavra deserta, posto que o cidadão joinvilense gosta mesmo é de trabalhar, independente da época do ano. Vou reformular:
Ok, talvez seja um pouco de exagero empregar a palavra deserta, posto que o cidadão joinvilense gosta mesmo é de trabalhar, independente da época do ano. Vou reformular:
O Natal está chegando e o meu bar preferido da cidade, ontem, estava deserto.
Uma grata surpresa para mim, devo dizer. Quando não há ninguém, posso ficar sentado ao balcão e pedir ao barman que coloque um disco antigo do BB King que reservam apenas para mim, para que eu aproveite o som e descanse minha cabeça cansada bebendo algo. Depois de mais ou menos 20 minutos de autocontemplação embalado pelo ótimo blues que saltava das cordas da guitarra de King, adentrou um outro cliente ao estabelecimento. Virei despreocupado tentando reconhecer o homem, mas percebi que (para minha felicidade) jamais havia o visto em minha vida.
Uma grata surpresa para mim, devo dizer. Quando não há ninguém, posso ficar sentado ao balcão e pedir ao barman que coloque um disco antigo do BB King que reservam apenas para mim, para que eu aproveite o som e descanse minha cabeça cansada bebendo algo. Depois de mais ou menos 20 minutos de autocontemplação embalado pelo ótimo blues que saltava das cordas da guitarra de King, adentrou um outro cliente ao estabelecimento. Virei despreocupado tentando reconhecer o homem, mas percebi que (para minha felicidade) jamais havia o visto em minha vida.
Um senhor estranho, de bigode muito bem aparado e um terno que parecia novo. Sentou-se no banquinho próximo ao meu, junto ao balcão e retirou seu chapéu panamá muito bem cuidado.
“Cara... Quem usa chapéu e terno para sair num domingo a noite?” Pensei.
O senhor pediu ao rapaz detrás do balcão uma dose dupla do melhor uísque que havia no boteco e colocou uma maleta pomposa sobre o balcão, bem ao meu lado. Destravou a pasta e dirigiu-se a mim:
“Dentro dessa maleta tem 500 mil reais em dinheiro.” Ele disse. Tomou um gole de seu uísque e continuou com o mesmo ar sereno:
“Te dou os 500 mil se você me explicar uma coisa...” Ele parou novamente pegando o copo de uísque e eu entendi que ele estava deixando essa última frase ser completamente entendida antes de continuar.
“Por acaso eu te conheço? Você sabe quem eu sou?” perguntei, não acreditando em uma única palavra que ele havia pronunciado até aquela hora.
Ele parou por alguns segundos me olhando e, ignorando minha frase, lançou o tema sobre o qual gostaria que eu explanasse, valendo seus 500 mil reais imaginários:
“O que é a criatividade? Como você faz para ser criativo?”
Franzi a testa com violência.
“Do que diabos esse retardado está falando?” Pensei comigo. Foi então que eu entendi o porque do papo estranho justamente comigo.
Sou um cara relativamente jovem, tatuado que usa brincos, moicano e que, na ocasião, vestia uma camisa preta com o nome de uma grande agência de propaganda da cidade. A camiseta estava suja com molho de cachorro quente de alguns minutos atrás e não tinha mangas. Originalmente ela tinha, mas em um lampejo de rebeldia infantil ou ignorância completa, eu havia removido as mangas com uma tesoura, dando um aspecto desleixado e rasgado ao uniforme da empresa.
Para completar minha figura bizarra, estava sozinho sentado ao balcão de um pequeno bar de Joinville, com a camiseta da agência “estilizada”, ouvindo blues e tomando Mojitos. Percebi que, talvez por absolutamente nada em mim fazer o menor sentido, ele deveria ter pensado que eu era do setor criativo da empresa e, por isso, poderia responder sua pergunta à contento. Ele não estava tão errado assim, eu realmente era diretor de criação na agência e uma figura estranha de ser observada. Tentei, educadamente, passar minha visão sobre o tema proposto pelo homem estranho:
“Não existe esse negócio de criatividade. Não sei quem foi que patrocinou essa sua pesquisa maluca que anda distribuindo dinheiro de banco imobiliário pelo país atrás da resposta definitiva...”
O outro mostrou-se bastante interessado quando eu comecei. Eu não acreditei em nenhum momento na história daquele dinheiro todo, e a última coisa que eu queria naquela hora do domingo era falar sobre o assunto com um cara que era certamente meio(ou completamente) maluco. Não sei porque, mas proferí mais uma ou duas frases assim mesmo:
“A criatividade é capacidade humana de inovar um discurso, seja ele qual for. É falar algo batido de um jeito novo. Isso é criatividade...” O homem continuou me olhando, querendo uma resposta melhor. “Na minha opinião.” Concluí.
“Não tem como definir o que é criatividade, eu acho...” Pensei comigo enquanto o velho senhor me encarava como se eu tivesse dito algo muito profundo. “Eu sei o que é esta porra, mas não sei falar pra esse maluco o que é.” Concluí, achando muito estranha toda aquela conversa.
Quando estava a ponto de mandar o velho maluco para a puta que o pariu, um rapaz levantou-se no canto do bar e deixou a cadeira cair, fazendo-se notar. Viramos, eu e o velho, para observar enquanto o rapaz se aproximava do balcão. Caminhava lentamente, com um copo de cerveja em mãos e quando finalmente chegou até nós, parou entre as duas banquetas e atirou um guardanapo dobrado ao balcão, fazendo um gesto para que o velho pegasse o papel.
O senhor o obedeceu e eu estiquei meu pescoço, curioso, para saber o conteúdo da mensagem. Ainda dobrado, o guardanapo exibia a palavra garranchada: “CRIATIVIDADE”. O velho desfez a torta dobradura e dentro do guardanapo haviam duas palavras: “CRIA” e “ATIVIDADE”. Entre as duas palavras, o rapaz havia desenhado aquele teletubbie roxo que tem um triângulo na cabeça e que eu nunca me lembro o nome. O desenho era totalmente tosco, mas eu pude identificar o triangulo e aquela televisãozinha esquisita que os gordinhos do desenho tinham na barriga. O dono da maleta dobrou novamente o guardanapo e o guardou dentro de um dos bolsos de seu paletó. O rapaz sorriu meio torto e foi saindo do bar.
Apressadamente o velho senhor abriu a maleta e eu vi, com os meus próprios olhos, uma infinidade de notas de 100 e 50 reais. Eu poderia jurar que o homem era completamente maluco, mas agora sou eu quem parece um imbecil contando uma história muito difícil de se acreditar. Não tenho uma necessidade extrema de que os leitores deste diário acreditem em mim mas esta, e eu posso jurar por qualquer coisa que vocês queiram, é a mais pura verdade. Fiquei tão sem reação quando vi a maleta aberta que não pude falar mais nada, apenas observar enquanto o homem idoso retirava uma nota de cinqüenta e deixava sobre o balcão, para arcar com as despesas do uísque que ele sequer havia bebido por completo.
Em seguida, ele fechou a maleta e saiu correndo do bar, atrás do ébrio rapaz que havia lhe entregue o maldito guardanapo que me roubara os 500 mil. O que diabos o rapaz estava pensando, quando desenhou porcamente aquele personagem de desenho? Foi então que eu percebi que o rapaz havia chocado muito mais o velho senhor e sido muito mais criativo em sua resposta. Pensei, sentado naquele mesmo banco durante as duas horas seguintes, o que o diabo do teletubbie tinha haver com criatividade. Tenho certeza que o velho senhor deve ter visto algo genial naquela resposta, posto que me ignorou completamente depois daquele papelzinho engordurado, mas percebi que aquilo era muito criativo apenas para os dois. Nunca saberei o que ele quis dizer, mas pensei sobre aquilo durante toda a noite, deitado em minha cama relembrando os detalhes que envolviam aquela cena patética de um jovem alcoolizado ganhando meio milhão de reais por um papel mal desenhado e uma cena sem sentido.
Essa é a história de como perdi meio milhão de reais por não ser criativo. É a verdade, acreditem se quiserem.
Da noite de ontem, levei apenas duas coisinhas:
A lição de que um trabalho criativo completamente bem sucedido impacta e não requer explicação, cria um sentido peculiar para cada pessoa e não possui certo ou errado. A segunda coisa, que passei a utilizar muito mais em minha vida, é um elegante chapéu panamá que foi esquecido no balcão do bar no exato dia em que eu perdi 500 mil reais.
Nicholas Prade

10:47
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